FORMAÇÃO  

“O Senhor vos faça crescer abundantemente no amor de uns para com os outros e para com todos. Que ele fortaleça os vossos corações numa santidade irrepreensível diante de Deus, nosso Pai”. (1Ts 3, 12-13).

Para que se possa atender com qualidade ao trabalho missionário apostólico junto aos jovens, é necessário uma qualificação daqueles que exercem esta atividade.

Daí a preocupação da Associação em fazer com que haja um plano formativo para todos os seus integrantes.


A VOCAÇÃO DO SALESIANO COOPERADOR

Simplesmente o chamado do Senhor para ser Salesiano Cooperador não implica que a pessoa já possua desde o início e estejam desenvolvidos todos os requisitos exigidos. Nem sequer significa que alguém já viva suficientemente as exigências que este chamado comporta.

A vocação para ser Salesiano Cooperador é um convite para se pôr a caminho, a fim de desenvolver gradativamente a vida batismal, empenhando-se na realização da missão salesiana e vivendo o espírito de Dom Bosco. Esta vocação para Cooperador:

- é original na sua identidade,

- é rica nos seus conteúdos,

- é empenhativa nas suas exigências.

Não dá para acreditar que alguém possa ser “automaticamente” Cooperador, e que possa agir como tal de forma improvisada, sem uma preparação e um esforço continuado de crescimento e amadurecimento.

Requer então uma formação que precisa realizar-se em duas etapas sucessivas:

- a primeira é chamada de formação inicial. Precede a promessa e é destinada a fazer com que o candidato a Salesiano Cooperador possa adquirir o conhecimento e as capacidades salesianas básicas.

- a segunda é chamada de formação permanente (continuada). Dura toda a vida e tem por finalidade fazer com que o Salesiano Cooperador se mantenha fiel à sua especifica vocação secular e salesiana, na evolução das situações pessoais, associativas, eclesiais e sociais.



A CARTA DE ROMA, como é conhecida, foi escrita por Dom Bosco e hoje é tomada como um testamento visionário da missão salesiana.

Chama a atenção especialmente para as atitudes daqueles que quiserem seguir no serviço junto a juventude necessitada.


CARTA TESTAMENTO
Roma


Roma, 10 de Maio de 1884

Meus caríssimos filhos em J.C.,

Perto ou longe, eu penso sempre em vós. Meu único desejo é ver-vos felizes no tempo e na eternidade. Esse pensamento e esse desejo é que me levaram a escrever-vos esta carta. Sinto, meus caros, o peso do afastamento, e o fato de não vos ver nem ouvir me aflige como não podeis imaginar. Desejaria por isso escrever-vos estas linhas há uma semana, mas as contínuas ocupações me impediram. Todavia, embora faltem poucos dias para minha volta, quero antecipar minha chegada ao menos por carta, já que não posso fazê-lo pessoalmente. São palavras de quem vos ama carinhosamente em Jesus Cristo e tem obrigação de falar-vos com a liberdade de um pai. Haveis de permiti-lo, não é verdade? E me prestareis atenção e poreis em prática o que vou dizer-vos.

Afirmei que sois o único e contínuo pensamento de minha mente. Ora, numa das noites passadas, havia-me recolhido ao quarto, e, enquanto me dispunha a repousar, tinha começado a rezar as orações que minha boa mãe me ensinou. Nesse momento, não sei bem se dominado pelo sono ou fora de mim por uma distração, pareceu-me ver dois dos antigos jovens do Oratório virem ao meu encontro.

Um deles aproximou-se e saudando-me afetuosamente me disse:

— Dom Bosco, não me conhece?

— Se te conheço, respondi.

— E lembra-se ainda de mim? — acrescentou o homem.

— De ti e de todos os outros. És Valfrè e estavas no Oratório antes de 1870.

— Diga — continuou Valfrè —, quer ver os jovens que estavam no Oratório no meu tempo?

— Sih, mostra-me — respondi —, isso vai dar-me grande prazer.

Então Valfrè mostrou-me todos os jovens com o mesmo semblante, estatura e idade daquele tempo. Parecia-me estar no antigo Oratório na hora do recreio. Era uma cena cheia de vida, movimento, alegria. Quem corria, quem pulava, quem fazia pular. Aqui brincava-se de rã, de barra, ou com bola. Num lugar uma roda de jovens pendia dos lábios de um padre, que lhes contava uma história. Noutro, um clérigo no meio de outros meninos brincava de burro voa e de jerônimo. Cantava-se, ria-se por todos os cantos e em toda parte encontravam-se padres e clérigos, e ao redor deles jovens brincando e gritando alegremente. Via-se que entre jovens e superiores reinava a maior cordialidade e confiança. Eu estava encantado com o espetáculo. Valfrè me disse então:

— Veja, a familiaridade gera o afeto e o afeto produz confiança. Isto é que abre os corações, e os jovens manifestam tudo sem temor aos mestres, assistentes e superiores, Tornam-se sinceros na confissão e fora da confissão e se prestam docilmente a tudo o que porventura lhes mandar aquele de quem têm certeza de serem amados.

Nesse instante aproximou-se de mim o outro ex-aluno, de barba toda branca, e me disse:

— Dom Bosco, quer conhecer e ver agora os jovens que atualmente estão no Oratório? (Era José Buzzetti).

— Sim, respondi; porque há já um mês que não os vejo!

E apontou-os para mim: vi o Oratório e todos vós no recreio. Mas já não ouvia gritos de alegria e cantos, não via o movimento e a vida da cena anterior.

Nos modos e nos rostos de muitos jovens lia-se enfado, cansaço, mau humor, desconfiança que me fazia sofrer o coração. Vi, é verdade, muitos a correr, brincar, agitar-se, com feliz despreocupação, mas muitos outros estavam sós, encostados às colunas, dominados por pensamentos desalentadores; encontravam-se outros pelas escadas e nos corredores ou na sacada perto do jardim para evitar o recreio comum; outros passeavam lentamente em grupos falando em voz baixa, lançando ao derredor olhares desconfiados e maliciosos. Sorriam de vez em quando, mas com um sorriso acompanhado de olhares que faziam suspeitar e até mesmo acreditar que S. Luis haveria de corar se andasse em tal companhia; mesmo entre os que brincavam alguns havia tão enfarados, que mostravam claramente não achar nenhum gosto nos divertimentos.

— Viu seus jovens? — perguntou-me o ex-aluno.

— Vejo-os —, respondi suspirando.

— Como são diferentes do que éramos nós em nosso tempo! — exclamou o ex-aluno.

— É Pena! Quanta falta de vontade nesse recreio!

— De aí é que vem a frieza de tantos meninos na freqüência dos santos Sacramentos, o desleixo das práticas de piedade na igreja e fora; o estar de má vontade num lugar onde a Divina Providência os cumula,de todo bem para o corpo, para a alma, para a inteligência. De aí não corresponderem muitos à sua vocação; de aí a ingratidão para com os superiores; de aí os segredinhos e as murmurações, com todas as demais deploráveis conseqüências.

— Compreendo, entendo — respondi —. Mas como reanimar estes meus caros jovens, para que retomem a antiga vivacidade, alegria, expansão?

— Com o amor!

— Com o amor? Mas os meus jovens não são bastante amados? Sabes quanto os amo. Sabes quanto por eles sofri e tolerei no decorrer de bem quarenta anos, e quanto suporto e sofro mesmo agora. Quantas privações, quantas humilhações, quantas oposições, quantas perseguições para dar-lhes pão, casa, professores e especialmente para garantir-lhes a salvação da alma. Fiz tudo quanto soube e pude por eles, que são o amor de toda a minha vida.

— Não falo do senhor!

— De quem então? Dos que me fazem as vezes? Dos diretores, prefeitos, professores, assistentes? Não vês como são mártires do estudo e do trabalho? Como consomem sua juventude por aqueles que a Divina Providência lhes confiou?

— Vejo, sei perfeitamente; mas isso não basta. Falta o melhor.

— Que é que falta, então?

— Que os jovens não somente sejam amados, mas que eles próprios saibam que são amados.

— Mas, afinal, não têm olhos? Não têm a luz da inteligência? Não vêem que tudo o que por eles se faz é por amor deles?

— Não, repito, isso não basta.

— Que é preciso, então?

— Que sendo amados nas coisas que lhes agradam, com participar em suas inclinações infantis, aprendam a ver o amor nas coisas que naturalmente pouco lhes agradam, como a disciplina, o estudo, a mortificação de si mesmos; e aprendam a fazer essas coisas com entusiasmo e amor.

— Explica-te melhor.

— Observe os jovens no recreio.

Observei e respondi: — E que há de especial para ver?

— Há já tantos anos que vive a educar os jovens e não entende? Olhe melhor! Onde estão os nossos salesianos?

Observei e vi que bem poucos padres e clérigos se misturavam com os jovens e bem menos ainda eram os que tomavam parte em seus divertimentos. Os superiores já não eram a alma do recreio. A maior parte deles passeava conversando entre si, sem ligar ao que faziam os alunos; outros olhavam o recreio sem se preocuparem absolutamente com os jovens; outros vigiavam, mas tão de longe que não poderiam perceber se os jovens cometiam alguma falta; um ou outro avisava mas em atitude ameaçadora e bem de raro. Ainda havia um ou outro salesiano que gostaria de intrometer-se no meio dos jovens; vi, porém, que estes procuravam propositalmente afastar-se dos professores e superiores.

Então meu amigo continuou: — Nos velhos tempos do Oratório o senhor não estava sempre no meio dos jovens, especialmente na hora do recreio? Lembra aqueles belos anos? Era um santo alvoroço, um tempo que lembramos sempre com saudade, porque o afeto é que nos servia de regra, e nós não tínhamos segredos para o senhor.

— Certamente. Tudo então era alegria para mim. Os jovens corriam ao meu encontro, para falar-me; ansiavam por ouvir meus conselhos e pô-los em prática. Vês, porém, que agora as contínuas audiências, os muitos afazeres e minha saúde não o permitem.

— Está bem: mas se o senhor não pode, por que seus salesianos não o imitam? Por que não insiste, não exige que tratem os jovens como o senhor os tratava?

— Eu falo, canso-me de falar, entretanto muitos não se sentem dispostos a enfrentar os trabalhos como outrora.

— E então descuidando o menos, perdem o mais, e esse “mais” são seus trabalhos. Amem o que agrada aos jovens e os jovens amarão o que aos superiores agrada. E assim ser-lhes-á fácil o trabalho. A causa da mudança atual no Oratório é que bom número de jovens não tem confiança nos superiores. Antigamente os corações estavam todos abertos aos superiores, a quem os jovens amavam e obedeciam prontamente. Mas agora os superiores são considerados como superiores e não como pais, irmãos e amigos; são pois temidos e pouco amados. Por isso, se se quiser formar um só coração e uma só alma, é preciso que por amor de Jesus se rompa a barreira fatal da desconfiança e se lhe substitua uma confiança cordial. Guie pois a obediência o aluno como a mãe guia o filhinho; reinará então no Oratório a paz e a antiga alegria.

— Como fazer então para romper a barreira?

— Familiaridade com os jovens especialmente no recreio. Sem familiaridade não se demonstra afeto e sem essa demonstração não pode haver confiança. Quem quer ser amado deve demonstrar que ama. Jesus Cristo fez-se pequeno com os pequenos e carregou as nossas fraquezas. Aí está o mestre da familiaridade! O professor visto apenas na cátedra é professor e nada mais, mas se está no recreio com os jovens torna-se irmão.

Se alguém é visto somente a pregar do púlpito, dir-se-á que está fazendo apenas o próprio dever; mas se diz uma palavra no recreio, é palavra de alguém que ama. Quantas conversões não provocaram algumas palavras suas ditas ocasionalmente aos ouvidos de um jovem enquanto brincava!

Quem sabe que é amado, ama; e quem é amado alcança tudo, especialmente dos jovens. A confiança estabelece uma corrente elétrica entre jovens e superiores. Os corações se abrem e dão a conhecer suas necessidades e manifestam seus defeitos. Esse amor faz os superiores suportarem canseiras, aborrecimentos, ingratidões, desordens, faltas e negligências dos meninos. Jesus Cristo não quebrou a cana já partida, nem apagou a mecha que fumega. Eis vosso modelo.

Então não se verá ninguém mais trabalhar apenas por vanglória; punir somente para satisfazer o amor próprio ofendido, retirar-se do campo da vigilância tão-somente por ciúme de temida preponderância alheia; murmurar dos outros querendo ser amado e estimado pelos jovens, com exclusão de todos os demais superiores, ganhando nada mais que desprezo e falsas manifestações de carinho; deixar-se roubar o coração por uma criatura e, para fazer-lhe corte, descuidar todos os outros meninos; por amor da própria comodidade julgar de somenos importância o dever importantíssimo da vigilância; por vão respeito humano deixar de advertir quem deve ser advertido.

Se houver esse verdadeiro amor, não se haverá de procurar senão a glória de Deus e a salvação das almas. Se vier a definhar, então é que as coisas já não vão bem. Por que se quer substituir à caridade a frieza de um regulamento? Por que se afastam os superiores da maneira de educar que Dom Bosco ensinou? Por que ao sistema de prevenir com a vigilância e amorosamente as desordens, se vai substituindo pouco a pouco o sistema, menos pesado e mais cômodo para quem manda, de impor leis que se mantêm com castigos, acendem ódios e geram desgostos, e se não se cuida de as fazer observar, geram desprezo aos superiores e causam gravíssimas desordens?

É o que acontece necessariamente se faltar a familiaridade. Se se quiser, pois, que o Oratório volte à antiga felicidade, reponha-se em vigor o antigo sistema: O superior seja tudo para todos, sempre disposto a ouvir qualquer dúvida ou queixa dos jovens, todo olhos para vigiar-lhes paternamente a conduta, todo coração para procurar o bem espiritual e temporal dos que a Providência lhe confiou.

Então, já não haverá corações fechados e não se alastrarão mais certos segredinhos que acabam matando. Somente em caso de imoralidade os superiores sejam inexoráveis. É melhor correr perigo de expulsar de casa um inocente, que conservar um escandaloso. Os assistentes considerem gravíssimo dever de consciência relatar aos superiores tudo o que souberem ser de algum modo ofensa de Deus.

Então indaguei:
— Qual é o meio mais indicado para que reine essa familiaridade, esse amor e confiança?
— A observância exata das regras da casa.
— E nada mais?
— O melhor prato de um jantar é o bom humor.

Enquanto meu antigo aluno acabava de falar e eu continuava a observar com vivo desprazer o recreio, pouco a pouco senti-me abatido por grande canseira, que ia crescendo cada vez mais. E chegou a tal ponto que não podendo mais resistir, estremeci e acordei.

Encontrei-me de pé junto à cama. As pernas estavam tão inchadas e me doíam tanto que não podia ficar de pé. A hora já ia muito adiantada, de modo que me deitei resolvido a escrever estas linhas a meus filhos.

Desejo não ter sonhos assim, por que me cansam demais. No dia seguinte sentia-me todo moído e não via a hora de descansar na próxima noite. Eis, porém, que, apenas me deitei, o sonho recomeçou. Reaparece o pátio, os jovens que atualmente estão no Oratório, e o mesmo aluno do Oratório.

Comecei a interrogá-lo:
— Comunicarei aos salesianos o que me disseste; mas que devo dizer aos jovens do Oratório?
Respondeu-me:
— Que reconheçam quanto superiores, mestres e assistentes trabalham e estudam por amor deles, pois se não fosse pelo bem deles não se haviam de sujeitar a tantos sacrifícios; que se lembrem ser a humildade a fonte de toda tranqüilidade; que saibam suportar os defeitos dos outros, porque a perfeição não é deste mundo, mas somente do paraíso; que deixem de murmurar, porque as murmurações esfriam os corações; e sobretudo que procurem viver na santa graça de Deus. Quem não tem paz com Deus, não tem paz nem consigo nem com os outros.

— Queres dizer então que há entre meus jovens alguns que não estão em paz com Deus?
— Entre as causas do mal-estar que Dom Bosco conhece, e não vou recordar agora, e às quais deve pôr remédio, esta é a principal. Com efeito, não desconfia senão quem tem segredos a guardar, senão quem teme que tais segredos venham a ser conhecidos, porque sabe que isso lhes traria vergonha e desgraça. Ao mesmo tempo se o coração não está em paz com Deus, fica angustiado, irrequieto, rebelde à obediência, irrita-se por um nonada, parece-lhe que tudo vai mal, e por não ter amor, julga que os superiores não o amam.

— Entretanto, meu caro, não vês quanta freqüência de confissões e comunhões há no Oratório?

— É verdade que é grande a freqüência das confissões, mas o que falta radicalmente em muitos meninos que se confessam é a firmeza nos propósitos. Confessam-se, mas sempre das mesmas faltas, das mesmas ocasiões próximas, dos mesmos maus hábitos, das mesmas desobediências, das mesmas transgressões dos deveres. E vai-se assim para a frente meses e meses, e também por vários anos, e alguns chegam assim até o fim do curso secundário. São confissões que pouco ou nada valem; conseqüentemente não trazem a paz. Se o menino fosse chamado nesse estado ao tribunal de Deus, que desgraça não seria.

— E há muitos assim no Oratório?

— Poucos em comparação com o grande número de jovens que se encontram na casa. Veja. E apontava.
Olhei e vi os tais jovens um por um. Nesses poucos, porém, vi coisas que me amarguraram profundamente o coração. Não quero pô-las no papel, mas quando voltar quero contar a cada um dos interessados. Aqui apenas vos direi que é tempo de rezar e de tomar firmes resoluções: tomar propósitos não com palavras, mas com fatos, e demonstrar que os Comolos, os Domingos Sávios, os Besuccos e os Saccardis ainda vivem entre nós.

Perguntei por fim ao meu amigo: — Não tens mais nada a dizer-me?

— Pregue a todos, grandes e pequenos, que se lembrem sempre de Maria SS. Auxiliadora. Que ela os reuniu aqui para tirá-los dos perigos do mundo, para que se amassem como irmãos, e para que dessem glória a Deus e a ela, com o bom procedimento; que é Nossa Senhora que lhes providencia pão e meios para estudar mediante graças e portentos. Lembrem-se de que estão na vigília da festa de sua Mãe S., e com sua ajuda deve cair a barreira da desconfiança que o demônio soube erguer entre jovens e superiores, e da qual se aproveita para ruína de certas almas.

— E conseguiremos destruir essa barreira?

— Sim, certamente, contanto que grandes e pequenos estejam dispostos a sofrer alguma pequena mortificação por amor de Maria e ponham em prática o que eu disse.
Entremente, eu continuava a olhar meus jovenzinhos, ante o espetáculo dos que via encaminhar-se para a eterna perdição senti tamanho aperto no coração que acordei. Muitas coisas importantíssimas que eu vi gostaria de contar-vos, mas o tempo e as conveniências não permitem.

Vou concluir. Sabeis o que deseja de vós este pobre velho, que gastou toda a vida por seus caros jovens? Nada mais do que, feitas as devidas proporções, retornem os dias felizes do Oratório primitivo. Os dias do afeto e da confiança cristã entre jovens e superiores; os dias do espírito de condescendência e tolerância por amor de Jesus Cristo de uns para com outros; os dias dos corações abertos com toda a simplicidade e candura; os dias da caridade e da verdadeira alegria para todos.

Tenho necessidade de que me consoleis, dando-me a esperança e a promessa de que fareis tudo o que desejo para o bem de vossas almas. Não conheceis suficientemente que felicidade é a vossa de haverdes sido recebidos no Oratório. Diante de Deus declaro: Basta que um jovem entre numa casa salesiana, para que a Virgem SS. o tome imediatamente debaixo de sua especial proteção, Ponhamo-nos, pois, todos de acordo. A caridade dos que mandam, a caridade dos que devem obedecer faça reinar entre nós o espírito de S. Francisco de Sales.

Ó meus caros filhinhos, aproxima-se o tempo em que me deverei separar de vós e partir para a minha eternidade. (Nota do secretário: Neste ponto Dom Bosco suspendeu o ditado; os olhos se lhe encheram de lágrimas, não por desgosto, mas por inefável ternura que ressumava de seu olhar e do tom de sua voz; depois de alguns instantes continuou). Desejo, portanto, deixar-vos a todos, padres, clérigos, jovens caríssimos, no caminho do Senhor, em que Ele próprio vos deseja.

Para tal fim, o Santo Padre, que vi sexta-feira, 9 de maio, vos manda de todo o coração sua bênção.

No dia da festa de Nossa Senhora Auxiliadora estarei convosco ante a imagem de nossa amorosíssima Mãe. Quero que essa grande festa se celebre com toda a solenidade, e o Pe. Lazzero e o Pe. Marchisio providenciem para que estejamos todos alegres também no refeitório. A festa de Maria Auxiliadora deve ser o prelúdio da festa eterna que deveremos celebrar um dia, todos juntos, no paraíso.

Vosso af.mo amigo em J. C.

Sac. João Bosco.

     

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